Psychopatty



Todas as sextas a mesa daquele bar era povoada por aquele grupo notório e excêntrico.
Um bar antigo e freqüentado pelos demais bêbados, loucos e insensatos da sociedade. Era escuro e tocava rock n roll. Enfumaçado e suspeito.
Diziam que no passado os maiores assassinos já se sentaram naquelas mesas para tomar conhaque e acertar pagamentos. Mas nos dias de hoje, apenas os desajustados iriam ali.
Quatro amigos diferentes e tão iguais.
Patrícia uma pessoa taciturna de vestes negras e olhos maus. Sofia que não parava de rir como se estivesse em uma eterna viagem de LSD. Josias que parecia viver em seu próprio universo, não falava muito. E Felix que falava demais, triste demais, alegre demais. Sempre demais.
E em todas as sextas-feiras, na mesma mesa enfumaçada por cigarro, no mesmo bar, o grupo se reunia e falava de coisas sem nexo que faziam todo o sentido.
Mas naquela sexta de um mês de novembro fora diferente.
Fazia frio e calor. O céu estava estrelado porem cheio de nuvens. Um clima sombrio.
No mesmo horário eles chegaram e pediram cervejas. O garçom já acostumado nem serviu-os, apenas botou a cerveja naquela mesa do canto e saiu.
Sempre a mesma mesa. Lá, no fundo do bar, onde ninguém os incomodaria. Onde eles não incomodariam ninguém.
 Riam muito sobre alguma coisa. Foram muitas cervejas. Sofia não parava de rir. Tudo era motivo para ela rir. Um riso esquisito, quase psicótico. Josias olhava para o nada e fumava um cigarro atrás o outro. Felix discutia sobre algo. Patrícia apenas fumava e com os olhos azuis e frios observava.
Risos. Silencio. Olhos maus. Tristeza. Riso. Tristeza. Cervejas. Cinzas de cigarro. Risos. Aquilo não parecia natural, mas era apenas mais uma sexta-feira.
-Eu vou ao banheiro. – disse Josias.
-HAHAHAHA – Sofia não parava de rir.
- Ela não vai par de rir? – disse Patrícia irritada.
-Deixa ela rir! O mundo precisa de alegrias, do que seria o mundo sem o riso? – Felix estava feliz.
-Cala a boca – retrucou Patrícia.
-HAHAHAHAHA – Sofia estava descontrolada.
Josias não voltava do banheiro.
Sofia ria, Felix destilava filosofias.
Risos e mais risos. Patrícia procurou algo dentro da bolsa. Um frasco com um pó branco. Abriu e despejou dentro do copo de Sofia que não parava de rir.
Sofia tomou o resto da cerveja sem sequer reclamar da substancia e parou de rir. Espumava pela boca e tinha os olhos arregalados. Parecia estar sufocando.
Então parou definitivamente de rir. Ficou ali com os olhos arregalados e a boca aberta.
-O que tu fez com ela? – Felix gritou.
-É que eu não estou de bom humor hoje. – respondeu Patrícia com um tom de voz seco.
-E o que tu vai fazer? Vai me matar? – Felix, que estava de frente para Patrícia, perguntou a desafiando.
Um canivete deslizou pela manga do casaco de Patrícia. Ela atirou em Felix e certeiramente acertou seu pescoço. O sangue escorreu de seu pescoço. Os mesmos olhos arregalados e assustados de Sofia se repetiram em Felix que se contorceu até a morte.
Lentamente Patrícia se levantou, pegou sua bolsa, foi até Felix, tirou o cigarro recém aceso de seus dedos, pos na boca, deu uma longa tragada e disse:
-Talvez...
Numa cadeira jazia Sofia, na outra Felix, In my time of dying do Led Zeppelin continuava tocando e Patrícia saiu da mesa batendo os saltos de sua bota de cano longo no piso frio do bar.
Josias chegou com mais uma cerveja. Serviu os copos de todos. Acendeu um cigarro e continuou olhando para o nada tomando sua cerveja despreocupadamente.
De longe ele era observado. Os mesmos olhos azuis, frios e maus. 

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